Seja bem-vindo
Rio de Janeiro,28/03/2026

  • A +
  • A -
Publicidade

Assalto ao bondinho de Santa Teresa e a crise de riso de Dida Fialho

Wikipédia – Enciclopédia Livre.
Assalto ao bondinho de Santa Teresa e a crise de riso de Dida Fialho Foto: Wikipédia - O romântico bondinho de Santa Teresa, num assalto inusitadodepois de uma tarde ensolarada com mais de 40 graus no Rio de Janeiro

Era 1984. Eu trabalhava para o Jornal O Globo, no Rio de Janeiro, quando o editor do Segundo Caderno, e do Caderno de Turismo, Fuad Atala, me chamou num canto e determinou uma missão para eu fazer. 


Ele queria que eu fizesse uma reportagem sobre o bairro de Santa Teresa, descrevendo como estava o turismo naquela região, que sempre foi um cartão postal no coração do Rio de Janeiro.


E, para variar, evidentemente, eu adorava Santa Teresa, e fiquei ainda mais fissurado pelo bairro quando minha filha, hoje, a Dra. Keisy Sheron, nasceu ali, bem debaixo dos braços do Cristo Redentor - como ela faz questão de destacar. E marcamos o nosso encontro nos Arcos da Lapa.


Eu queria sair caminhando pela linha do bondinho desde os Arcos da Lapa, vendo toda movimentação, os casarões, prédios e outros pontos turísticos daquele bairro poético e histórico do universo carioca. Sempre gostei de botar os pés no chão e de caminhar quando quero manter contato com a natureza e com a história – é sensação extraordinária.


A temperatura naquele dia estava amena e não trazia aquele sol escaldante típico da temperatura carioca, que aceita facilmente fritar um ovo sobre a tampa e um bueiro. Nada daquela brasa pura do Rio 40 Graus, da graciosa e sempre bela botafoguense Fernandinha Abreu.


E começamos a caminhar pela longa linha do bondinho, jogando conversa fora, e eu fazendo minhas anotações num bloquinho de papel que eu dobrava e colocava no bolso traseiro da minha velha e surrada calça Jeans – nunca fui daqueles repórteres organizadinhos que andam uma caderneta na mão.


Meus chefes ficavam perplexos e sempre me perguntavam onde é que eu guardava tanta informação. Mas eu só anotava os tópicos e guardava o resto na caixola. 


Anotei tudo o quanto julguei necessário e, de repente, numa curva meio que medieval, avistamos o barzinho com ares aconchegantes, olhamos um para e dissemos simultaneamente:


  - É aqui!



Coração vagabundo


Entramos no bar, pedimos uma cerveja estupidamente gelada e começamos a beber. Era umas quatro da tarde.  


Conversa vai, conversa vem, cerveja pra cá, tira-gosto pra lá, quando olhei no relógio já passava das dez da noite. Ficamos quase meia hora chamando o garçom e nada de o cara vir à nossa mesa – o bar estava lotado.


Nos emputecemos e resolvemos sair andando na maior cara de pau, no exato momento em que o bonzinho ia passando. Só tivemos o trabalho de pular dentro do bonde.


Mal nos sentamos, fomos surpreendidos com dois ladrões: um deles ia fazendo o rapa enquanto o outro apontava o revólver para o meu peito, a um palmo de distância – se ele aperta o gatilho iria despedaçar o meu coração vagabundo.


Enquanto o assaltante já ia pedindo o meu relógio, pulseira e colar de prata – o relógio era aquele tipo Champion, que vinha com sete pulseiras – Dida Fialho teve uma crise de riso, e explodia numa gargalhada de fazer inveja a Fafá de Belém, a mãe da mais bela e espalhafatosa gargalhada do Brasil.


Fiquei perplexo e sem acreditar, pensando que o cara ia esmagar o meu coração com um tiro a queima roupa. O efeito da piscina de cerveja que acabávamos de tomar passou na hora, enquanto o assaltante começou a rir também, com altas gargalhadas.

O outro assaltante, também de arma em punho, na parte dianteira do bondinho, olhou para trás e gritou:


 - Deixa de frescura, pega tudo e vamos embora logo.


O assaltante pegou o que tinha que pegar e saiu correndo rindo e gritando:

- Que cara mais maluco, eu com o revólver apontado para o peito do amigo dele, e ele rindo sem parar.


Os assaltantes subiram o morro, enquanto o bondinho seguia linha abaixo, eu congelado e Dida Fialho rindo sem parar. O cara ficou quase uma hora rindo. Ele dava uma pausa e explodia novamente noutra gargalhada.


Desembarcamos nos Arcos da Lapa e seguimos para tomar a saideira no Amarelinho, na Cinelândia. Fui me acalmando lentamente, na medida que tomávamos aquele chope gelado.


Dida seguiu para Jacarepaguá, onde morada, eu peguei a barca da meia noite, com destino à Niterói. Deixava meu carro no estacionamento da Estação das Barcas, e seguia para o bairro de Santa Rosa, onde eu morava, ao lado do estádio Caio Martins, que à época era arrendado ao Botafogo, pela prefeitura.


Ele, um flamenguista doente, e eu um botafoguense pra lá de apaixonado. Mas essa diferença nunca abalou nossa amizade – Dida continua sua estrada de um extraordinário cantor e compositor, e eu tocando a minha vida de jornalista, jurista, escritor e palestrante.


E assim a vida continua...


Um pouco da história de Santa Teresa


O bairro de Santa Teresa surgiu a partir do convento de mesmo nome, no século XVIII. Foi, inicialmente, habitado pela classe alta da época, numa das primeiras expansões da cidade para fora do núcleo inicial de povoamento português, no Centro da cidade. Surgiram, então, vários casarões e mansões inspirados na arquitetura francesa da época, muitos dos quais estão em pé até hoje. O bairro de Santa Teresa recebeu, ao longo de toda sua existência, muitos imigrantes europeus.


Por volta de 1850, a região foi intensivamente ocupada pela população que fugia da epidemia de febre amarela na cidade. Por ficar num local mais elevado, a região era menos atingida pela epidemia do que os bairros que a circundavam. 


Em 1872, surgiria o bonde que se tornou o símbolo do bairro, subindo as Ruas Joaquim Murtinho e Almirante Alexandrino. Inicialmente, o bonde era tracionado por muares. 


Depois, foi dotado de motores e rede elétrica. Conforme as fotos antigas demonstram, suas cores variavam entre o verde, o prata e o azul, mas passou a ser pintado de amarelo após reclamações de moradores que diziam que o bonde "sumia" em meio à vegetação do bairro. O bonde vai do bairro ao Centro da cidade em travessia sobre os Aqueduto da Carioca desde 1896, quando fez sua primeira viagem.


O bairro possui uma das mais antigas associações de moradores do Rio de Janeiro. A Associação de Moradores e Amigos de Santa Teresa foi proposta pela primeira vez em manifestação pública e através de abaixo-assinado, na Praça Odilo Costa Neto, na então famosa Festa Junina de Santa Teresa, em junho de 1978. Seu registro de fundação é de 10 de julho de 1980.


A partir de manifestações organizadas, os mora dores conseguiram a preservação do sistema de bondes histórico, através do tombamento e de cobranças constantes do poder público pela liberação de verbas para os bondinhos.


Porém, com o trágico acidente ocorrido com o bonde em 27 de agosto de 2011 que matou cinco pessoas, o governo estadual, responsável pela operação do bonde, resolveu paralisar temporariamente a sua circulação até que fossem feitas obras de modernização do sistema.




Revitalização


Com o tempo, Santa Teresa perdeu seu status de bairro nobre assim como os bairros históricos da Zona Sul do Rio de Janeiro, mas tornou-se, ao longo dos anos, um bairro de interesse cultural e turístico devido à facilidade logística e à localização privilegiada do bairro.


 Desde 2009, com eçou um projeto de revitalização do bairro. Foram muradas as favelas do bairro para que não crescessem mais. Desde então, essa população passou a pagar regularmente imposto sobre a propriedade predial e territorial urbana, água, energia e gás. 


Isto diminuiu o número de pessoas de baixa renda e colaborado para uma manutenção do valor do metro quadrado do bairro, que, em 2012, foi apontado como 26º mais caro da cidade, custando em média 5 685 reais. Os bondes foram retirados de circulação em agosto de 2011 após o acidente na Rua Joaquim Murtinho e voltaram a circular com uma frota mais moderna em dezembro de 2015


Um belo modo de vida


Tradicionalmente, vivem, em Santa Teresa, predominantemente bairro de classe média e classe média alta, muitos intelectuais, acadêmicos, artistas, militares e políticos, atraídos pelas características históricas, culturais e pela qualidade de vida que este proporciona. Há uma grande quantidade de políticos e movimentos populares ou mobilizações coletivas. Há também um grande número de organizações não governamentais instaladas no bairro, que prestam serviços e dão apoio às comunidades localizadas no entorno do mesmo.


Também há, no bairro, um polo gastronômico, principalmente ao redor do Largo dos Guimarães, área boêmia do bairro. Santa Teresa vem se firmando como uma das principais atrações turísticas do Rio de Janeiro, o que faz com que muitos a considerem como "O Montmartre carioca", devido ao grande número de artistas que possuem ateliê e residem no local.


O bairro, popularmente chamado pelos cariocas de "Santa", é composto de várias escadarias, ladeiras e vielas tortuosas, que ligam-no aos bairros vizinhos do Centro, Glória, Laranjeiras, Bairro de Fátima, Cosme Velho, Catumbi, Catete e Rio Comprido. Na parte alta, há mirantes e acessos para o Parque Nacional da Tijuca e o Corcovado.


O acesso já foi feito pelo bonde com tração animal e elétrica, por muares alugados, linhas de coletivos (kombis e ônibus). Bondes, automóveis, bicicletas, motocicletas, táxis, veículos turísticos, microônibus e pedestres são as formas de acesso atuais.


As linhas de bondes atualmente em operação no bairro são: Largo do França x Carioca, Largo do Curvelo x Dois Irmãos, Dois Irmãos x Carioca e o Ramal Muratori. Há 4 linhas de microônibus que circulam pelo bairro: 006 - Castelo x Silvestre, 007 - Central x Silvestre, 014 - Castelo x Paula Matos, 507 - Largo do Machado x Silvestre.


Serviços de transporte alternativo de kombis e mototáxi, nas regiões da Lapa e Glória, são muito utilizados pelos moradores do bairro, onde foi ambientada parte da telenovela Corpo a Corpo, da Rede Globo.


Sobre o autor


Tarcísio Neves é jornalista profissional, radialista, comentarista de futebol e comentarista político. Jurista, especialista em Direito Penal, Processual Penal, Direito Civil, Processual Civil e Constitucional. É escritor, autor do clássico A Décima Terceira Regra de Ouro Para o Sucesso, além de músico, palestrante motivacional, pastor e psicanalista clínico. (Com Wikipédia – Enciclopédia Livre)..






COMENTÁRIOS

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.